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Un poco de reflexidad

Quinta, Maio 1st, 2008

Um texto interessante sobre os estudos sociais de ciências, tecnologia e sociedade. Abaixo, o fichamento:

KREIMER, Pablo THOMAS, Hernán (2004). Un poco de reflexividad o De onde venimos? Estudiossociales de la ciencia y la tecnologia en America Latina. In Producción y uso social de conocimentos. Estudios de Sociologia de la ciencia y la tecnologia en America Latina. Bernal, Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes Editorial

intervenção [11]

Cada vez que se estuda algum campo do conhecimento, necessariamente se faz um “intervenção” neste campo

limites difusos [12]

O campo CTS ainda é muito difuso na América Latina, isto se deve, em parte, graças a sua recente institucionalização e em parte por sua própria natureza. O campo começou a encontrar espaço institucional apenas duas décadas, e os espaços de atuação são muito heterogêneos

Origens na América Latina [13]

Por aqui, a origem do campo aparece com uma particularidade, uma vez que os primeiros que se preocuparam com o tema foram engenheiros e cientístas. Até a década de 80 existe uma presença muito pequena de cientistas sociais. Até a “conversão” de engenheiros em cientistas sociais foi moderada na América Latina.

justaposição de investigadores [13]

Uma parte intrínseca do campo CTS é a justaposição entre investigadores saídos das ciências sociais de um lado e investigadores das ciências puras de outro. Em alguns casos, esta justaposição foi espontânea, como na Inglaterra, onde economistas, matemáticos e sociólogos se uniram. Em outros casos, esta união é uma estratégia deliberada, como o programa da CNRS francesa.

subgrupo das ciências sociais [15]

O CTS é um subgrupo de estudos das Ciências Sociais. Ainda que participaram dele engenheiros e cientistas, isto se deu apenas no início.

contextos periféricos [15]

Praticamente não existe nenhuma reflexão sobre a produção das ciências sociais em contextos periféricos em relação ao mainstream dessas disciplinas na cena internacional. Com isso, salvo raras exceções, a América Latina tem “recebido” as teorias dos EUA e da Europa. Gerando reflexões, desenvolvimentos e crescimento “a partir” das teorias americanas e européias, mesclando com diversas investigações empíricas dirigidas a problemas locais bem específicos, ainda que se utilizando dos marcos teóricos que podem ser desvinculados dos seus contextos de produção

campo de estudos [16]

Atualmente, podemos demarcar os estudos CTS como estudos de: sociologia e história da ciência e da tecnonologia, econômia da mudança tecnológica, política de ciência, tecnologia e inovação, administração e gestão da ciência e tecnologia, ética aplicada (bioética, ética da investigação científica), filosofia da ciência e da tecnologia, comunicação pública da ciência e ciência da educação

constituição de um campo científico [18]

Em linhas gerais, pode-se afirmar que a efetiva constituição de um campo científico responde à articulação de um conjunto de elementos que vão se organizando em um espaço “autosustentável” e se reproduz através das novas gerações.

linhas mestras [20]

As análises são feitas com base em três linhas mestras:

-”Áreas temáticas” - Se integram na análise elementos correspondentes aos aspectos sociais, cognitivos e de gênero

KREIMER, Pablo THOMAS, Hernán (2004). Un poco de reflexividad o De onde venimos? Estudiossociales de la ciencia y la tecnologia en America Latina. In Producción y uso social de conocimentos. Estudios de Sociologia de la ciencia y la tecnologia en America Latina. Bernal, Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes Editorial - 2

-”Aspectos institucionais” - Refere fundamentalmente a geração de isntituições de investigação e programas universitários de formação de recursos humanos.

-”Desenvolvimento dos aspectos sociais da interação” - Sintetiza a dinâmica de socialização do campo em termos de organização de eventos científico-acadêmicos e de publicações científicas da região.

Trajetória do campo [20]

O campo CTS teve alguns momentos: 1 - 1960 / 1970 - Forma-se o campo de estudos sociais de ciências e tecnologia, gerando as primeiras reflexões sistematicas, onde se estabeleceram as primeiras agendas e se realizaram as primeiras publicações. 2 - A partir de 1980 existe a expansão e consolidação do campo CTS, onde foram gerados processos de institucionalização da investigação e programas de pós-graduação.

história dos talentos [21]

Primeiramente, deu-se a história dos talentosos e extraordinários cientistas, como Oswaldo Cruz, no Brasil e Bernardo Houssay na Argentina. Mais tarde foi elaborada uma revisão crítica da biografia e obra desses cientistas

abordagens [21]

Desde os anos 80, os grupos foram se formando com bases em três diferentes aboradagens do campo CTS: “abordagem histórica”, “abordagem política” e “abordagem socioantropológica”

identidade [24]

O campo CTS estava preocupado em criar sua própria identidade latino-americana, haja vista que todas as perspectivas para o campo eram européias ou americanas

história da tecnologia [25]

Entre 1960 e 70, a história da tecnologia alcançou um desenvolvimento escasso se comparado à história da ciência. Isso porque boa parte dos trabalhos tecnológicos eram feitos com produtos locais, e de mais difícil difusão pelo resto do mundo. O segundo motivo é a reserva em realação às invenções locais, por culpa das leis de patente.

aspectos normativos [26]

É interessante notar que entre os anos 60 e 70, houve uma clara supremacia dos aspectos de tipo normativo, em detrimento dos aspectos analíticos.

problemas políticos [26]

Ourto campo disciplinar da CTS se estruturou ao redor dos problemas políticos realativos a ciência e tecnologia. Foi estruturado então o PLACTS - Pensamento latino-americano em ciência, tecnologia e sociedade. O texto de Dagnino, Thomas e Dayvid nos fala mais sobre isso

apoios [27]

Nos 60, quando os estudos começaram, já começaram com apoio da OEA e da Unesco. O objetivo era mobilizar a ciência e tecnologia como palanque do desenvolvimento político e social

sociologia do conhecimento e suas pretensões [33]

Nos anos 70, acabou por formar-se uma nova “sociologia do conhecimento”. Com uma pretenção de abrir a “caixa preta” da ciência. OUtra pretensão foi a de ligar aspectos cognitivos presentes no interior desta caixa preta, com os aspectos sociais que os condicionam, demarcam e em alguns casos, os determinam

KREIMER, Pablo THOMAS, Hernán (2004). Un poco de reflexividad o De onde venimos? Estudiossociales de la ciencia y la tecnologia en America Latina. In Producción y uso social de conocimentos. Estudios de Sociologia de la ciencia y la tecnologia en America Latina. Bernal, Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes Editorial - 3

intenção da CTS [33]

Na América Latina, o campo CTS ocupa-se da estrutura cultural da ciência, mais como um ensio sobre sociologia do que uma incursão pela metodologia.

sociologia construtivista [34]

A sociologia construtivista impulsionou uma mudança fundamental no nível de análise da ciência, concentrando-se no que chamou “ciência enquanto se faz”, que devia ser observada nos laboratórios e outros espaços concretos de produção de conhecimento.

conhecimento como construção social [34]

O conhecimento é, para a maior parte dos autores das novas correntes, o resultado de uma construção social. Motivo pelo qual a nova sociologia do conhecimento tenha sido frequentemente denominada de “construtivismo”

desafios [34]

O primeiro desafio foi derrubar a suposição de que cientistas “usam os métodos adequados”com o objetivo de “obter conhecimento verdadeiro”.

simon schwartzman [35]

simon schwartzman faz uma reconstrução do desenvolvimento da comunidade científica no Brasil. Desde o começo e a herança portuguesa entre os séculos XVIII e XIX até os tempos mais modernos, de verdadeira institucionalização da investigação científica.

nível de inserção institucional [36]

Durante um grande período, o nível de inserção institucional da CTS foi relativamente informal. Os estudiosos do tema eram também professores em suas áreas específicas de atuação,e não havia nenhum curso de pós-graduação neste nível. Isso até o final dos nos 70. Assim, fica complicado denominar o concieto de “escola”. Até o final dos 70 os cientistas que investigavam o CTS estavam ilhados. Ainda assim, posteriormente, existiu uma grande fluência de idéias.

anos 80-2000 [39]

A partir dos anos 80, o estudo dos campos sociais das ciências desenvolveu-se tanto em aspectos quantitativos (mais publicações, mais investigações) quanto em aspectos qualitativos (maior diversidade temática, pluralização de abordagens). Com o aumento da produção, as ronteiras entre as distintas abordagens se tornam muito mais difusas. Tambem nota-se uma forte influência da institucionalização e , em particular, da academização das atividades de investigação com cursos de mestrado e doutorado, ao contrário das décadas anteriores, fortemente marcadas pelas atividades individuais.

institucionalização acadêmica [42]

O processo de institucionalização acadêmica da produção do campo CTS teve como correlato uma maior preocupação com o rigor metodológico das produções, a inscrição explícita a marcos teórico-conceituais e o desenvolvimento de investigações enquadradas em competências disciplinares.

subordinação [43]

A produção CTS latinoamericana está dentro de um fenômeno de “integração subordinada”, comum a grande parte da produção científica da região. Isto se dá, em parte, pelo desejo dos pesquisadores em publicar em revistas internacionais. Para tanto, é necessário simular os “cases” norte-americanos ou europeus, em alguns casos, forçando a barra.

política e financiamentos [44]

Outro problema encontrado foi que, por causa da institucionalização das pesquisas, elas acabaram focando um eixo, ditado tanto

KREIMER, Pablo THOMAS, Hernán (2004). Un poco de reflexividad o De onde venimos? Estudiossociales de la ciencia y la tecnologia en America Latina. In Producción y uso social de conocimentos. Estudios de Sociologia de la ciencia y la tecnologia en America Latina. Bernal, Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes Editorial - 4

por uma planificação governamental quanto por uma busca por financiamentos, o que acabava por alinhar as pesquisas e orientar as pesquisas em modelos propostos muitas vezes fora da região.

Áreas temáticas [45]

As duas áreas temáticas mais representativas, apresentando uma produção mais significativa foram: sociologia da ciência e tecnologia e economia do movimento tecnológico

80 e 90 [46]

Entre as décadas de 80 e 90, várias manifestações e trabalhos foram criados em toda a américa Latina. Sempre tendo como base explorar o problema CTS. No texto há vários exemplos.

ditaduras [69]

As ditaduras na América Latina impediu toda instância social de debate crítico, além de impactar fortemente sobre as instituições e os intelectuais, implicando, inclusive, no exílio de vários deles. A geração dos pioneiros foi afetada diretamente por essas políticas governamentais. Com o exílio, muitos dos investigadores tiveram suas vozes caladas, censuradas em seus países. Outros, porém, aprofundaram seus contatos em centros de investigação CTS no exterior, aprofundando seus conhecimentos e criando novas concepções.

conclusões [69]

Entre 1960 e 2000, a trajetória do campo CTS só aumentou na América Latina, com um aumento da quantidade de investigadores, acumulação de conhecimento, multiplicação de abordagens teórico-metodológicas e crescimento de grupos de investigação. Este crescimento, porém, não foi linear, com o campo CTS “passando” por várias gerações, com diferentes desenvolvimentos e institucionalizações.

conclusões da segunda geração [72]

A segunda geração desenvolveu maiores capacidades de investigação, resultantes tanto da profissionalização quanto da academização, que permitiu o desenvolvimento de disciplinas acadêmicas. Com isso, é possível verificar crescentes pontos de convergência entre diversas disciplinas, gerando um diálogo entre enfoques distintos e criando uma convergência mediante geração de redes específicas da temática.

ortodoxias [74]

É possivel detectar, nos CTS latino-americanos, uma certa aparição local de ortodoxias, algumas teorizações anti-mainstream, que foram formuladas nos países de origem, acabam perdendo sua característica, transformando-se em meras aplicações “oficiosas”, a produçnao acadêmica se subornidou, em muitos casos, à agenda internacional

consolidação nos 90 [75]

Nos anos 90, o campo se consolida em um processo de institucionalização. São desenvolvidas novas habilidades e gerado uma larga base empírica, além de ter aumentado a visibilidade internacional em torno dos estudos CTS da America Latina. Porém, parece não haver tido uma dinâmica de desenvolvimento teórico conceitual correspondente ao aumento da produção.

complexidade atual [76]

No atual estado das CTS, os investigadires não conseguem dar conta da complexidade atual. Globalização, abertura política e social, integração regional, etc. Ainda que possam apontar critérios sobre “o que não fazer”, não tem força para propor priorizar e definir metas políticas concretas.

riscos a serem evitados no futuro [77]

-Aplicar criticamente marcos teóricos e metodologias elaboradas sob outros contextos sem submeter-los à análise de sua adequação nos objetos de investigação locais

KREIMER, Pablo THOMAS, Hernán (2004). Un poco de reflexividad o De onde venimos? Estudiossociales de la ciencia y la tecnologia en America Latina. In Producción y uso social de conocimentos. Estudios de Sociologia de la ciencia y la tecnologia en America Latina. Bernal, Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes Editorial - 5

-Não estabelecer uma distanciamento do objeto estudado.

-
Desenvolver estudos de caso baseados apenas em nossas premissas empíricas
-
Desenvolver análises que não contribuem para aprofundar nosso conhecimento sobre a produção e o uso de conhecimentos em nossas sociedades.
-
Considerar que as condições locais estão descoladas do contexto global
-
Considerar que as condições globais explicam nossa dinâmica local.

inutilidade [79]

Segundo Leonardo Vaccarezza, os estudos CTS, de forma geral contribuíram pouco ou nada para a sociedade. Isto porque se mantiveram ilhados e impactaram pouco.

imaturidade do CTS [80]

Um dos motivos que podemos assinalar para a baixa penetração das idéias CTS nas políticas públicas na América Latina é a própria imaturidade do campo, que, até então, está mais preocupado em manter-se como um campo do conhecimento sólido, manter sua autonomia

comparação com EUA e Europa [80]

Em comparação com os EUA e co a Europa, a América Latina teve uma participação muito menor em relação às políticas públicas. Uma das explicações pode ser a escassa ou mesmo nula atenção que as disciplinas em torno das ciências políticas dão às políticas de ciência, tecnologia e cultura.

Modalidades de institucionalização do CTS [81]

Segundo Steve Fuller, existem duas grandes correntes dos estudos sociais da ciência. Um, denominado “alto clero” define-se com maiores pretensões acadêmicas, tanto teóricas quanto metodológicas, e normalmente seguindo correntes construtivistas. Outra, denominada “baixo clero” é definida como questionadora do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, desde o movimento hippie até hoje.

Na América LAtina, a maior parte dos movimentos sociais e políticos têm tido uma atitude mais celebratória em relação à ciência e tecnologia, tendo-as como ícones da modernidade. Atualmente, parece que na América Latina temos uma aproximação maior com o “Alto Clero” e suas idéias academicistas.

reflexão [82]

Vaccarezza nos faz a seguinte pergunta: “Qual deveria ser o compromisso do campo CTS com a região? ”

O caso do pintor daltônico - Oliver Sacks

Quinta, Maio 1st, 2008

Ótimo texto, explicando que as cores são formadas no cérebro, e não nos olhos. Abaixo, a resenha:

SACKS, Oliver. O caso do pintor daltônico. In: SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte. São Paulo: Cia das Letras, 1995

daltonismo [21]

O daltonismo é uma deficiência congênita, decorrentes de defeitos nos cones do olhos

início [21]

O texto inicia-se com a história de Jonathan I, artista de 65 anos que bateu o carro e, graças a um traumatismo, perdeu a capacidade de distinguir cores.

cientistas da cor [22]

Os maiores “descobridores” da cor, sejam filósofos, artistas ou cientistas, foram Goethe, Spinoza, Schopenhauer, Young, Maxwell, Helmholtz e, claro, Newton, que descobriu a decomposição da luz branca.

papel do cérebro na visão [22]

Como o pintor não tinha problemas nos olhos (afinal bateu a cabeça), pode-se enxergar as cores como uma “construção cerebral” e algo que constrói as cores dentro do cérebro foi afetado

alexia [23]

Depois da batida (por 5 dias), o paciente não conseguia ler. Via os caracteres como se fossem gregos ou hebraicos, ou seja, entendia que deveria haver algum significado ali mas não compreendia o que estava escrito. Essa alexia durou 5 dias.

amnésia [23]

O Sr. I., após o choque foi a delegacia e descreveu o acidente. Algumas horas depois não se lembrava mais sequer que tinha batido o carro.

sujeira [24]

O Sr. I., depois da descoberta da perda das cores, começou a perceber como tudo estava com um aspecto sujo, desagradável, graças a ausência de cor

cor-de-rato [25]

O Sr. I. começou a ter problemas de toda ordem, haja vista que percebia todas as pessoas com cor-de-rato. Até sua mulher ele não conseguia encarar.

linguagem [28]

O Sr. I., afirmou que era impossível qualquer pessoa ter a mesma experiência dele, e que até mesmo a linguagem não conseguia demonstrar o que ele estava sentindo e como as cores realmente se pareciam para ele. Não era “cinza”e nem “chumbo”. Era outra coisa indizível.

sala cinza [28]

O pintor criou uma sala inteiramente cinza para que as outras pessoas pudessem ter uma noção melhor do seu trabalho, ou seja, para que pudessem ter a mesma experiência.

fotografia [28]

Para o pintor, a fotografia preto-e-branco não incomoda porque ela é uma representação do mundo. Você pode sempre desviar o olhar quando quiser.

tentativa de pintar [29]

Ainda que achasse que sabia usar as cores “de memória”, os quadros do pintor mostravam-se incompreensíveis. Só fizeram sentido quando um amigo bateu uma foto PB do quadro. Então puderam perceber os contornos. Mesmo assim, as cores pareciam incorretas

SACKS, Oliver. O caso do pintor daltônico. In: SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte. São Paulo: Cia das Letras, 1995 - 2

enxaquecas e sonhos [29]

Até mesmo suas enxaquecas e seus sonhos foram privados de cor, uma vez que a cor é construída no cérebro.

perda da memória da cor [30]

O pintor deu-se conta que não conseguia mais lembrar das cores. Todo o seu passado cromático era apenas um registro histórico. Ele mesmo não lembrava das cores dos seus próprios quadros.

sol em preto e branco [31]

Após ver um nascer do sol em preto em branco, o artista decidiu pintar assim. Afinal, quem, além dele, teria visto um nascer do sol com raios pretos? Quando ele o pintou, deu o nome do quadro de Aurora Nuclear

Retomada em preto-e-branco [32]

Aos poucos, o pintor foi alterando sua maneira de pintar, e conseguiu trabalhos muito bons em preto e branco, refletindo o que ocorria em sua vida particular, que começava a ganhar mais ânimo.

Newton e a decomposição da luz [35]

Newton decompôs a luz com um prisma em 1666, em 1802, Thomas Young postulou que apenas três tipos de cores eram suficientes, mas esta idéia pessou desapercebida. 50 anos depois (1852) Hermann von Helmholz ressuscitou a idéia de Young e a aperfeiçoou, dizendo que a cor era uma expressão direta de comprimentos de ondas de luz absorvidas por cada receptor, restando ao sistema nervoso apenas traduzir um para o outro “a luz vermelha estimula fortemente as fibras sensíveis ao vermelho e fracamente as outras duas, dando a sensação de vermelho”

mundo inconstante [38]

Segundo o Sr. I, ele agora vivia num mundo inconstante, cheio de nuances que se davam por uma breve mudança na iluminação, diferente do mundo estável das cores que ele via antes.

Helmholtz e a cor [39]

Helmholtz se preocupa com o fato de, apesar de a luz variar muito, continuamos vendo, por exemplo, uma maça vermelha. para ele, apesar da luz, o ser humano possui um “ato de discernimento” das cores.

Goethe e a cor [39]

Goethe, intrigado com a incompatibilidade da lei newtoniana, que diz que cada onda possui um comprimento específico, e sua percepção das combras, começa a declarar que “a ilusão de óptica é a verdade ótica”. Segundo ele, o cérebro imaginativo cria mundos, imagens e ilusões. Na realidade, o que ele estava dizendo era: “A ilusão visual é uma verdade neurológica”. Apesar de seus contemporâneos refutarem a sua teoria da cor (dizendo que era um capricho de um grande poeta), Hemholtz a ressuscitou, fazendo várias palestras sobre a vida e a obra de Goethe e as cores.

Clerk Maxwell e a fotografia colorida [40]

Ckerk Maxwell, contemporâneo de Helmholtz, demonstrou com um pião que poderia formar cinza se o girasse. A partir daí, em 1861, sugeriu que a fotografia em cores poderia ser possível, bastando tirar 3 fotos com “cores separadas” e depois juntando-as e sobrepondo-as sobre uma tela, com o filtro correposndente (a imagem tirada com o filtro vermelho era projetada com a luz vermelha, e assim por diante)

Edwin Land e foto colorida [41]

Edwin land, criador da polaroid, certa vez tirou duas fotos preto e branco, em uma câmera de foco dividido, e depois aplicou dois filtros: um que deixava passar comprimentos de onda maiores (filtro vermelho) e outro deixando passar comprimentos mais curtos (filtro verde). A primeira imagem foi projetada com filtro vermelho e a outra com luz branca. Assim, conseguiu-se uma foto genuinamente colorida. Uma vez que as cores não estavam nas fotografias ou nas fontes de luz, concluiu-se que talvez fossem “ilusões” como a cor no sentido de Goethe. Na realidade, as cores eram construídas pelo cérebro.

SACKS, Oliver. O caso do pintor daltônico. In: SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte. São Paulo: Cia das Letras, 1995 - 3

determinação da cor [42]

Land mostrou que a determinação da cor não era local e nem absoluta, mas dependia do exame de toda a cena, e também da comparação entre a composição do comprimento de onda da luz refletida a partir de cada ponto e da luz refletida do entorno. Assim, dava-se o “ato de discernimento” de Helmholtz.

Comprimentos de onda [46]

Quando o Sr. I. descrevia o mundo dizendo que as coisas “flutuavam” graças à iluminação, ele descrevia o mundo em comprimentos de onda

causa do problema [47]

Com os exames, ficou determinado que o problema que afetava o pintor estava na área V4, mais precisamente no córtex secundário. Um pedaço do cérebro do tamanho de um grão de feijão.

comprimentos de onda II [47]

O Sr I. discriminava os comprimentos de onda, mas não conseguia traduzir tal visão em cores. O cérebro dele não conseguia construir a cor.

Conhecimento da cor [49]

Nossa visão de mundo perpassa pela cor. Sem ela, todo o nosso universo parece outro, bem como nosso conhecimento do mundo, nossa cultura e também a arte

transformação de valores [52-55]

Depois de algum tempo, o Sr. I acabou por redefinir sua vida, tanto no nível psicológico como no fisiológico e no estético. Sr. I. acabou por transformar seus valores. Mesmo porque, depois de certo tempo (mais de um ano) acaba-se por “esquecer” as cores. COm isso, acabou por se parecer demais com um daltônico congênito. Assim, acabou por se tornar notívago, já que as luzes muito fortes o incomodavam e o crepúsculo o deixava mais à vontade. O Sr I., então, passou a entender que a sua visão estava “altamente refinada”, “privilegiada”, e que ele via um mundo de formas puras, sem o incômodo das cores. Ele poderia ver padrões sutis e texturas que normalmente ficam invisíveis por causa da cor. Cerca de três anos após o acidente, um médico sugeriu que ele poderia voltar a ver as cores, educando outra parte do cérebro. O pintor negou a idéia