O caso do pintor daltônico - Oliver Sacks
Ótimo texto, explicando que as cores são formadas no cérebro, e não nos olhos. Abaixo, a resenha:
SACKS, Oliver. O caso do pintor daltônico. In: SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte. São Paulo: Cia das Letras, 1995
daltonismo [21]
O daltonismo é uma deficiência congênita, decorrentes de defeitos nos cones do olhos
início [21]
O texto inicia-se com a história de Jonathan I, artista de 65 anos que bateu o carro e, graças a um traumatismo, perdeu a capacidade de distinguir cores.
cientistas da cor [22]
Os maiores “descobridores” da cor, sejam filósofos, artistas ou cientistas, foram Goethe, Spinoza, Schopenhauer, Young, Maxwell, Helmholtz e, claro, Newton, que descobriu a decomposição da luz branca.
papel do cérebro na visão [22]
Como o pintor não tinha problemas nos olhos (afinal bateu a cabeça), pode-se enxergar as cores como uma “construção cerebral” e algo que constrói as cores dentro do cérebro foi afetado
alexia [23]
Depois da batida (por 5 dias), o paciente não conseguia ler. Via os caracteres como se fossem gregos ou hebraicos, ou seja, entendia que deveria haver algum significado ali mas não compreendia o que estava escrito. Essa alexia durou 5 dias.
amnésia [23]
O Sr. I., após o choque foi a delegacia e descreveu o acidente. Algumas horas depois não se lembrava mais sequer que tinha batido o carro.
sujeira [24]
O Sr. I., depois da descoberta da perda das cores, começou a perceber como tudo estava com um aspecto sujo, desagradável, graças a ausência de cor
cor-de-rato [25]
O Sr. I. começou a ter problemas de toda ordem, haja vista que percebia todas as pessoas com cor-de-rato. Até sua mulher ele não conseguia encarar.
linguagem [28]
O Sr. I., afirmou que era impossível qualquer pessoa ter a mesma experiência dele, e que até mesmo a linguagem não conseguia demonstrar o que ele estava sentindo e como as cores realmente se pareciam para ele. Não era “cinza”e nem “chumbo”. Era outra coisa indizível.
sala cinza [28]
O pintor criou uma sala inteiramente cinza para que as outras pessoas pudessem ter uma noção melhor do seu trabalho, ou seja, para que pudessem ter a mesma experiência.
fotografia [28]
Para o pintor, a fotografia preto-e-branco não incomoda porque ela é uma representação do mundo. Você pode sempre desviar o olhar quando quiser.
tentativa de pintar [29]
Ainda que achasse que sabia usar as cores “de memória”, os quadros do pintor mostravam-se incompreensíveis. Só fizeram sentido quando um amigo bateu uma foto PB do quadro. Então puderam perceber os contornos. Mesmo assim, as cores pareciam incorretas
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enxaquecas e sonhos [29]
Até mesmo suas enxaquecas e seus sonhos foram privados de cor, uma vez que a cor é construída no cérebro.
perda da memória da cor [30]
O pintor deu-se conta que não conseguia mais lembrar das cores. Todo o seu passado cromático era apenas um registro histórico. Ele mesmo não lembrava das cores dos seus próprios quadros.
sol em preto e branco [31]
Após ver um nascer do sol em preto em branco, o artista decidiu pintar assim. Afinal, quem, além dele, teria visto um nascer do sol com raios pretos? Quando ele o pintou, deu o nome do quadro de Aurora Nuclear
Retomada em preto-e-branco [32]
Aos poucos, o pintor foi alterando sua maneira de pintar, e conseguiu trabalhos muito bons em preto e branco, refletindo o que ocorria em sua vida particular, que começava a ganhar mais ânimo.
Newton e a decomposição da luz [35]
Newton decompôs a luz com um prisma em 1666, em 1802, Thomas Young postulou que apenas três tipos de cores eram suficientes, mas esta idéia pessou desapercebida. 50 anos depois (1852) Hermann von Helmholz ressuscitou a idéia de Young e a aperfeiçoou, dizendo que a cor era uma expressão direta de comprimentos de ondas de luz absorvidas por cada receptor, restando ao sistema nervoso apenas traduzir um para o outro “a luz vermelha estimula fortemente as fibras sensíveis ao vermelho e fracamente as outras duas, dando a sensação de vermelho”
mundo inconstante [38]
Segundo o Sr. I, ele agora vivia num mundo inconstante, cheio de nuances que se davam por uma breve mudança na iluminação, diferente do mundo estável das cores que ele via antes.
Helmholtz e a cor [39]
Helmholtz se preocupa com o fato de, apesar de a luz variar muito, continuamos vendo, por exemplo, uma maça vermelha. para ele, apesar da luz, o ser humano possui um “ato de discernimento” das cores.
Goethe e a cor [39]
Goethe, intrigado com a incompatibilidade da lei newtoniana, que diz que cada onda possui um comprimento específico, e sua percepção das combras, começa a declarar que “a ilusão de óptica é a verdade ótica”. Segundo ele, o cérebro imaginativo cria mundos, imagens e ilusões. Na realidade, o que ele estava dizendo era: “A ilusão visual é uma verdade neurológica”. Apesar de seus contemporâneos refutarem a sua teoria da cor (dizendo que era um capricho de um grande poeta), Hemholtz a ressuscitou, fazendo várias palestras sobre a vida e a obra de Goethe e as cores.
Clerk Maxwell e a fotografia colorida [40]
Ckerk Maxwell, contemporâneo de Helmholtz, demonstrou com um pião que poderia formar cinza se o girasse. A partir daí, em 1861, sugeriu que a fotografia em cores poderia ser possível, bastando tirar 3 fotos com “cores separadas” e depois juntando-as e sobrepondo-as sobre uma tela, com o filtro correposndente (a imagem tirada com o filtro vermelho era projetada com a luz vermelha, e assim por diante)
Edwin Land e foto colorida [41]
Edwin land, criador da polaroid, certa vez tirou duas fotos preto e branco, em uma câmera de foco dividido, e depois aplicou dois filtros: um que deixava passar comprimentos de onda maiores (filtro vermelho) e outro deixando passar comprimentos mais curtos (filtro verde). A primeira imagem foi projetada com filtro vermelho e a outra com luz branca. Assim, conseguiu-se uma foto genuinamente colorida. Uma vez que as cores não estavam nas fotografias ou nas fontes de luz, concluiu-se que talvez fossem “ilusões” como a cor no sentido de Goethe. Na realidade, as cores eram construídas pelo cérebro.
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determinação da cor [42]
Land mostrou que a determinação da cor não era local e nem absoluta, mas dependia do exame de toda a cena, e também da comparação entre a composição do comprimento de onda da luz refletida a partir de cada ponto e da luz refletida do entorno. Assim, dava-se o “ato de discernimento” de Helmholtz.
Comprimentos de onda [46]
Quando o Sr. I. descrevia o mundo dizendo que as coisas “flutuavam” graças à iluminação, ele descrevia o mundo em comprimentos de onda
causa do problema [47]
Com os exames, ficou determinado que o problema que afetava o pintor estava na área V4, mais precisamente no córtex secundário. Um pedaço do cérebro do tamanho de um grão de feijão.
comprimentos de onda II [47]
O Sr I. discriminava os comprimentos de onda, mas não conseguia traduzir tal visão em cores. O cérebro dele não conseguia construir a cor.
Conhecimento da cor [49]
Nossa visão de mundo perpassa pela cor. Sem ela, todo o nosso universo parece outro, bem como nosso conhecimento do mundo, nossa cultura e também a arte
transformação de valores [52-55]
Depois de algum tempo, o Sr. I acabou por redefinir sua vida, tanto no nível psicológico como no fisiológico e no estético. Sr. I. acabou por transformar seus valores. Mesmo porque, depois de certo tempo (mais de um ano) acaba-se por “esquecer” as cores. COm isso, acabou por se parecer demais com um daltônico congênito. Assim, acabou por se tornar notívago, já que as luzes muito fortes o incomodavam e o crepúsculo o deixava mais à vontade. O Sr I., então, passou a entender que a sua visão estava “altamente refinada”, “privilegiada”, e que ele via um mundo de formas puras, sem o incômodo das cores. Ele poderia ver padrões sutis e texturas que normalmente ficam invisíveis por causa da cor. Cerca de três anos após o acidente, um médico sugeriu que ele poderia voltar a ver as cores, educando outra parte do cérebro. O pintor negou a idéia
Junho 13th, 2008 at 5:49 pm
Aê! Não li o tópico todo, só o começo. O pintor é dito “daltônico”, mas essa definição não é exata. Melhor seria dizer que ele é neurologicamente incapaz de distinguir cores, já que o daltonismo é a ausência de um tipo de cones na retina, em geral aqueles que percebem o comprimento de onda “vermelho”. Um problema oftalmológico, portanto. Mas isso é preciosismo. O uso da palavra é estendido na literatura médica pra englobar as variantes neurológicas. Só pra te encher o saco mesmo!